O CRISTIANISMO EM TEMPO DE PANDEMIA
O nosso mundo está doente.
Não estou a referir-me apenas à pandemia de coronavírus, mas ao estado de nossa civilização, como é revelado nesse fenômeno global.
Em termos bíblicos: é um « sinal dos tempos ».
No início desta temporada quaresmal fora do comum, muitos de nós pensámos que essa epidemia provocaria um colapso generalizado a curto prazo, uma rutura no funcionamento normal da sociedade, que superaríamos de uma maneira ou de outra. , e que em breve tudo irá voltar ao normal como estava antes.
Mas esta situação é diferente e não será correto se tentarmos que volte ao que era antes.
Após esta experiência global, o mundo não será mais o mesmo que era antes e provavelmente não deverá ser.
Durante as grandes calamidades, é natural preocuparmo-nos primeiro com as necessidades materiais para sobreviver. Mas nós "não vivemos só de pão".
Quando o processo de globalização em curso parece ter atingido seu auge: a vulnerabilidade geral de um mundo global é agora evidente
Chegou a hora de examinar as implicações mais profundas desse golpe dado à à auto-confiança do nosso mundo.
A Igreja como « hospital de campanha »
Que tipo de desafio essa situação de um mundo globalizado mas tão vulnerável representa para o cristianismo e para a Igreja ?
O Papa Francisco utiliza a imagem dum « hospital de campanha »
Utilizando esta imagem, para que a Igreja seja um "hospital", é claro que ela deve oferecer os serviços de saúde, sociais e de caridade que oferece desde o início de sua história.
Mas como um bom hospital, a Igreja deve também realizar outras tarefas como sejam :
1-Ter um papel de diagnóstico , isto é, identificando os “sinais dos tempos » e fazendo discernimentos sobre os caminhos a seguir.
2- Ter um papel de prevenção, criando um "sistema imunológico" numa sociedade onde os vírus malignos do medo, do ódio, do populismo e do nacionalismo são galopantes.
3- Ter um papel de convalescença, superando os traumas passados com o perdão
Igrejas vazias: um sinal e um desafio de Deus
Reflito sobre essas igrejas vazias ou fechadas como sinal e desafio de Deus.
Compreender a linguagem de Deus nos acontecimentos em grande escala de nosso mundo requer a arte do discernimento espiritual,
que, por sua vez, exige desapego contemplativo
em relação às nossas emoções intensas e aos nossos preconceitos,
bem como as projeções dos nossos medos e desejos.
Em tempos de catástrofes , não vejo Deus como um diretor mal-humorado, sentado confortavelmente nos bastidores dos acontecimentos do nosso mundo, mas prefiro vê-lo como uma fonte de força de amor, operando entre aqueles que demonstram solidariedade e amor desinteressado em tais situações .
Descubro Deus que é amor humilde e discreto.
Esta época de vazio nos edifícios das igrejas talvez revele simbolicamente o vazio oculto das igrejas e seu futuro provável,
a menos queos cristãos façam um esforço sério para mostrar ao mundo uma face completamente diferente do cristianismo.
Quando a igreja medieval fez uso excessivo de proibições como sanções canónicas e proclamando a proibição de todos os serviços religiosas ( ex. as « excomunhões » colectivas e duradouras) nas quais os serviços religiosos ficavam suspensos, incluindo funerais e os sacramentos não eram mais administrados, foi acontecendo que as pessoas começaram a buscar cada vez mais um relacionamento pessoal com Deus,
Talvez devessemos aceitar a abstinência atual dos serviços religiosos e do funcionamento habitual da Igreja.
como uma oportunidade de pararmos e resolvermos ter uma profunda reflexão diante de Deus e com Deus.
Se estamos preocupados com a grande falta de padres na Europa, ao mesmo tempo, devemos dar mais espaço aos ministérios que os leigos podem exercer na Igreja.
Não devemos esquecer que em muitas áreas do Mundo a Igreja sobreviveu sem o clero durante séculos.
Talvez esse "estado de emergência" seja indicativo da uma nova face da Igreja, da qual existem precedentes históricos.
Estou convencido de que os católicos devem procurar aproximar-se do ideal que deu origem às universidades europeias:
-uma comunidade de estudantes e professores,
-uma escola de sabedoria, onde a verdade é procurada através de um debate livre e também de profunda contemplação.
No dia anterior à eleição papal, o cardeal George Bergoglio citou o Apocalipse em que Jesus fica do lado de fora da porta e bate.
E ele acrescentou: « Hoje Jesus Cristo está a bater por dentro da Igreja e quer sair. »
Talvez seja isso que Ele acabou por estar a fazer.
Durante anos, refleti sobre o conhecido texto de Friedrich Nietzsche "A parábola do louco" - o louco que é o único que pode falar a verdade - proclamando "a morte de Deus".
Esse capítulo termina com o fato de o louco ir à igreja cantar "Requiem aeternam deo" e perguntar: "Afinal, o que são essas igrejas realmente, se não as túmulos e os sepúlcros de Deus? "
Devo admitir que, durante muito tempo, vários aspectos da Igreja me pareciam túmulos frios e opulentos de um deus morto.
Onde podemos encontrar presentemente Jesus Ressuscitado ?
Pesquisas sociológicas indicam que presentemente no mundo o número de crentes – que inclui tanto aqueles que se identificam plenamente com a forma tradicional de religião e aqueles que afirmam o ateísmo dogmático - está a diminuir à medida que o número dos « que procuram respostas » (seekers »)"aumenta.
Além disso, é claro que há um número crescente de "apateistas", pessoas que não se interessam por questões religiosas nem com as respostas tradicionais que recebem.
A linha principal de separação já não está entre aqueles que se consideram crentes e aqueles que afirmam não ser crentes.
Existem "os que procuram respostas » (« seekers ») tanto entre os crentes (aqueles para quem a fé é um « caminho » e não uma "herança) como entre os "não-cresntes" que, embora rejeitem os princípios religiosos propostos pelos que os rodeiam, têm um desejo de algo que satisfaça a sua sede de sentido (de significado) para a vida.
Estou convencido que nesta nossa época devemos buscar a Deus no mundo dos "que procuram respostas ».
No primeiro século da nossa era, a Igreja primitiva com fiéis vindos do judaismo e fiéis vindos das religiões pagãs experimentaram a destruição do Templo em que Jesus rezou e ensinou os seus discípulos.
Os judeus daquela época encontraram uma solução corajosa e criativa: substituíram o altar do templo demolido pela mesa da família judaica e a prática do sacrifício pela oração privada e comunitária. Substituíram os holocaustos e os sacrifícios de sangue pelo "sacrifício dos lábios": reflexão, louvor e estudo das Escrituras.
Na mesma época, o cristianismo primitivo, expulso das sinagogas, procurou uma nova identidade própria.
Sobre as ruinas das tradições, os judeus e os cristãos aprenderam a reler a Lei e os profetas e a interpretá-los novamente.
Não estaremos nós numa situação semelhante hoje em dia?
Deus em todas as situações
Quando Roma caiu no início do século V, houve explicações instantâneas de vários lados:
-os pagãos viram isso como um castigo dos deuses por causa da adoção do cristianismo,
-os cristãos viam isso como um castigo de Deus dirigido a Roma, que continuara a ser a Babilónia prostituida aos deuses.
Santo Agostinho rejeitou essas duas explicações: nessa época crucial e desenvolveu a sua teologia da luta entre duas "cidades" opostas, não entre cristãos e pagãos, mas entre dois "amores" que habitam o coração do homem:
-amora si próprio, fechado à transcendência
-e o amor que se dá e assim encontra Deus
Não será que o atual período da civilização exige uma nova teologia da história contemporânea e uma uma nova compreensão do que é a Igreja?
O teólogo ortodoxo Paul Evdokimov dizia : "Sabemos onde está a Igreja, mas não sabemos onde ela não está".
É claro que podemos aceitar este tempo com as igrejas vazias e silenciosas como uma simples medida temporária que logo que possível terminará.
Mas também podemos recebê-lo como um "kairos", um momento oportuno "para entrar em águas mais profundas" e buscar uma nova identidade para o cristianismo, num mundo que está a mudar radicalmente diante dos nossos olhos.
A pandemia atual certamente não é a única ameaça global que nosso mundo enfrentará hoje e no futuro.
Vamos agradecer esta quadra da Páscoa (até ao Pentecostes) como um desafio para procurar Jesus Vivo de modo diferente.
Nós poderemos reconhecê-Lo pelas suas feridas e pela sua voz quando Ele nos falar pessoalmente, pelo Seu Espírito que nos traz paz e tira o medo.
Tomas Halick
Tradução de Frei Eugénio Boléo, Ordinis Praedicatorum


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